
Domínio Didático
A música enquanto saber humano pode ser dividida de acordo com seus vários objetos de estudo. Assim, a harmonia estuda a relação dos sons concomitantemente, a orquestração estuda a relação entre os timbres e a história da música estuda o fenômeno musical no decorrer do tempo. Um músico de boa formação acadêmica precisa dominar ao menos alguns desses assuntos. Mas nada disso garantirá que ele conduza uma boa aula de música.
Ao se deparar com o estudo formal, em geral o estudante tenta organizar a ordem de aprendizado em função da estrutura da disciplina. Por exemplo, primeiro aprende sons de 4 tempos, depois de 2 tempos e assim por diante. Essa perspectiva também é chamada de organização lógica. Embora faça sentido intelectual, nem sempre a ordem lógica produz o melhor efeito educacional. O ideal é levar em consideração as dimensões do aprendizado de acordo com a pessoa humana. A partir daí é que surge o conceito de organização psicológica.
Organizar psicologicamente um conteúdo é buscar organizar o conteúdo em função da assimilação do mesmo pelo ser humano. Assim, é possível aprender ritmos que sejam mais pulsantes antes de aprender ritmos com durações mais longas, embora do ponto de vista lógico seja mais difícil de compreender. Esse ponto leva a compreender um dos papéis do professor de música que é organizar o conteúdo sob uma perspectiva didática e não sob uma perspectiva formal.
Aula 2
Outra habilidade cara ao professor de música é presumir que o aluno diante dele é um ser humano multifacetado. Isso quer dizer que ao ensinar um conteúdo, o professor leva em consideração as emoções, as experiências, as incertezas e até as motivações dos alunos. Se o aluno está com um humor rebaixado, às vezes insistir numa ação pode produzir o efeito contrário do ensino. Se o aluno está com dificuldade em desenvolver uma habilidade, pode ser por uma questão comportamental. Dessa maneira, o professor deve ser capaz de observar e interpretar o aluno, muito embora essa habilidade não seja ensinada em aulas de harmonia ou orquestração.
Se por um lado, interpretar o aluno é essencial para o professor de música, por outro não é suficiente para que haja aprendizagem. Claro que interpretar o aluno abre portas, mas o que importa é que a aprendizagem aconteça com essa abertura. Na maioria das vezes o professor age não como um conhecedor do assunto, mas como um vendedor de ideias. Em sala de aula, ele tenta persuadir, motivar, encorajar o aluno a aprender e a continuar aprendendo ao longo do ciclo de aprendizagem. Nesse sentido, a arte de ensinar é uma arte retórica.
Claro que saber conduzir e atrair o aluno durante todo ciclo de aprendizagem exige esforços significativos por parte do professor. O conhecimento musical adquirido pelo docente ao longo da vida colabora com sua atividade profissional, porém não garante o sucesso didático. Por outro lado, organizar o conteúdo, interpretar o aluno e vender esses conteúdos ao aluno interpretado é que consiste nas habilidades reais do professor de música. Mas para isso é necessário algo mais do que o conhecimento formal. É preciso sensibilidade humana.

