Menos é mais

Ensinar música exige paciência. Todo professor de música se depara com essa percepção em algum momento da vida profissional. Mas só ter paciência não basta.Há situações em que a paciência do professor não é suficiente para que o aluno aprenda. É fundamental saber o que ensinar e quando ensinar. Ao se deparar com uma dificuldade de aprendizagem do aluno, muitos professores de música acreditam que a dificuldade é decorrente da ausência de conteúdos. A partir disso, os professores tendem a acrescentar mais conteúdos na expectativa de resolver a dificuldade dos alunos. O provável é que o aluno está apresentando dificuldades devido ao excesso de conteúdos.

Em vários momentos, a atividade didática está relacionada mais ao ato de retirar elementos do que adicionar. O professor precisa decidir o que é essencial a ser ensinado naquele momento do aluno. Por exemplo, se o aluno não está conseguindo executar um trecho ao instrumento, talvez não seja o acréscimo de exercícios, mas talvez um ajuste na forma de segurar o instrumento. Em outras palavras, segurar o instrumento corretamente é mais fundamental do que o trecho aprendido.

O conteúdo essencial tem relação direta com o estágio de desenvolvimento do aluno. É preciso observar o que o aluno já domina e o que é capaz de desenvolver naquele momento. Essa atitude deve permear tanto a perspectiva de curto, quanto de médio prazo. No curto prazo, pode-se refletir nas aulas isoladamente. É sempre uma boa atitude pedagógica não promover um excesso de conteúdos em sala de aula. Às vezes dois ou três conteúdos já são suficientes para a aula ser efetiva. No médio prazo, pode-se adotar a mesma perspectiva ao considerar a quantidade de conteúdos ensinadas durante um ou dois semestres.

Aula 9

Na verdade, o excesso de conteúdo tem fundamento na insegurança do professor. Ao notar os entraves no processo de aprendizagem, o professor pode acreditar que não ensinou o suficiente e adiciona conteúdos. Entretanto, essa atitude demonstra um diagnóstico inefetivo, pois na maioria das vezes, o que falta ao professor é metodologia. O conteúdo por si só jamais será eficiente ao promover o ensino de música. Nesse sentido, um bom professor de música precisa ter à sua disposição inúmeras estratégias metodológicas para ensinar um mesmo conteúdo. Ao perceber a dificuldade do aluno, ele não adiciona mais conteúdos, mas busca outras estratégias didáticas no seu arsenal para veicular o mesmo conteúdo.

Retirar conteúdos não é empobrecimento. É clareza. Uma aula clara é útil tanto ao professor de música, quanto ao aluno que quer aprender. Facilita a criação de um ambiente psicológico de confiança e de menos ansiedade. Afinal, onde não há clareza, haverá incerteza. E a incerteza pode provocar desconforto mental. Diante de um ambiente mais claro e previsível, o processo de aprendizagem se promove quase que instantaneamente.

Escolher o essencial tem dois lados. Um é que o professor de música precisa estar seguro de suas decisões. Estando seguro, ele pode conduzir a aula com muito mais assertividade, deixando o ambiente mais seguro também. O lado negativo é o extremo desconforto que pode causa a ação de se desprender de inúmeros elementos que pareciam fundamentais aos alunos. No final das contas, saber escolher é muito mais uma atividade psicoemocional do que propriamente um problema didático. Por isso que Beethoven jaz como exemplo para os músicos e professores. Com clareza absoluta e sem acréscimos supérfluos, sua obra nos influencia a adquirir a virtude de escolher o que realmente importa. O aluno agradece.