Ensinar é Organizar

Algumas pessoas tem aparência, mas não tem conteúdo. Surge nelas uma grande preocupação em aparentar ser algo, do que propriamente possuir algo efetivamente. A primeira vista, a proposição anterior parece assertiva se não fosse por um deslize. Não é somente de conteúdo que é formado o ser humano. Se o ser humano é muito mais do que uma coleção de conteúdos, também a aula de música não pode se reduzir à veiculação de conteúdos.

Ao iniciar uma trajetória no aprendizado da música, o aluno se lança em uma estrada sem saber o que se espera no percurso. O contato com um professor é justamente o contato com uma pessoa que já percorreu o caminho e viu outras pessoas percorrerem o caminho. Nesse sentido, o professor sabe o que é eficiente e ineficiente na aprendizagem, sabe o que é fundamental aprender no início e o que pode se deixar para depois. Em outras palavras, o professor traz mais eficiência à aprendizagem de música.

A eficiência está ligada a inúmeros fatores, como os sociais, ambientais, culturais e até econômicos. Um dos aspectos que mais afeta a aprendizagem de música é o funcionamento psíquico do aluno. E como todo fenômeno, a psique está composta por determinadas engrenagens, como a motivação, a emoção etc.

Como as engrenagens psíquicas relacionam-se entre si, nota-se que a mente humana funciona principalmente por associação. Associamos cores, odores, quantidades, padrões e inúmeras outras estruturas. Além disso, enquanto fenômeno psíquico, a associação possui certas características que a tornam funcional, como a contiguidade, o contraste, a similaridade e a frequência. Por exemplo, duas coisas apresentadas frequentemente juntas a um sujeito, tendem a estar associadas em sua mente.

Aula 3

O professor de música leva o fenômeno da associação em consideração a medida que utiliza a sua aula para facilitar a associação de elementos musicais. Em sala, ele faz revisão para manter a contiguidade, apresenta exemplos fora do aprendido para reforçar o contraste, ensina coisas semelhantes às outras etc. Saber usar da associação é uma habilidade valiosíssima para o professor de música. Nesse aspecto, o professor é um facilitador do fenômeno da associação.

Enquanto fenômeno psicológico, a associação existe nos seres humanos, bem como nos animais, embora de maneira mais simplificada. Entretanto há dimensões do aluno que são propriamente humanas. O aluno de música tem desejos, tem potencial de aprendizagem e tem suas relações com outros seres humanos. Isso equivale a dizer que o aluno tem dimensões afetivas, cognitivas e sociais. Ao adentrar a sala de música, as diversas dimensões se articulam em sala de aula para produzir o fenômeno da aprendizagem.

Isso quer dizer que o professor de música é como um mecânico que conhece o funcionamento de um automóvel. Considerar que o motor é movido à gasolina é uma ação esperada de um bom mecânico. Da mesma maneira, considerar o que move os alunos é a tarefa do professor de música. Por isso, ele cria condições que vão facilitar a articulação das diversas dimensões humanas em sala de aula. Por exemplo, se o aluno tem uma dimensão social, provavelmente ter amigos que aprendam música potencializará o aprendizado. Isso significa que deve haver um esforço do professor para fomentar a amizade e estabelecimento de relações estimulantes no ambiente de aprendizagem.

Ter um bom conteúdo a abordar na aula de música talvez seja um dos últimos elementos a serem considerados pelo professor. A atividade de ensinar música nos impele além do conteúdo musical. Em sala de aula, o professor age também como articulador das diversas dimensões humanas e sobretudo como facilitador da associação. Por isso, educar musicalmente é mais do que disponibilizar conteúdos. É organizar experiências.