Arrastados pelo exemplo

Quando eu estava no ensino médio, havia uma professora que falava durante o tempo inteiro da aula. Penso que talvez ela fosse uma pessoa passando por vários desafios na vida pessoal e precisava de uma forma de catarse. O fato é que fiz as provas, fui aprovado, mas não me lembro de nada do conteúdo.

Alguns professores acreditam que quanto mais falarem, melhor. Muitos deles são até carismáticos e bons oradores. Conseguem captar a atenção dos alunos através das palavras. O ponto é que sem se concentrar nos objetivos educacionais, a aula corre o risco de ser apenas um entretenimento.

Um bom professor utiliza de exemplos em abundância e entende que falar é prata, ouvir é ouro. Através dos exemplos os alunos captam todas a sutilezas da arte de tocar instrumentos, desde detalhes corporais na postura até nuances sonoras do instrumento. Aliás, cuidar do próprio comportamento em sala de aula é saber que tudo é exemplo e que os alunos incorporam muito mais informações do que imaginamos.

Quando uma criança nasce, os pais não costumam dar instruções. Em vez disso, eles buscam oferecer um ambiente de segurança para o bebê. A partir da observação, o bebê começa a esboçar sinais de aprendizado: começa a balbuciar sons, realiza movimentos mais complexos e quando menos esperamos, o bebê começa a andar e falar. Seria uma perda de tempo dar instruções a essa criança.

Aula 7

Isso quer dizer que diversos processos de aprendizagem acontecem mais pela imitação do que pela instrução. Não só nas habilidades da vida prática, mas sobretudo na vida artística. Vários compositores começaram por imitar outros compositores que admiravam. Beethoven, por exemplo, admirava Mozart. Encontraremos muito de Mozart nas suas primeiras obras. Também Picasso no início de sua trajetória parodiava diversas obras conhecidas no intuito de absorver o estilo do artista. Na aula de música não é muito diferente.

Agindo dessa maneira, o professor permite que a reflexão tome um caminho natural na educação musical. Com um substrato robusto de experiências e informações não-verbais, o aluno tem mais conteúdo para refletir, tornando a reflexão uma consequência e não uma imposição em sala de aula.

Claro que isso não quer dizer que não se deva explicar nunca. Apenas não se deve reduzir a aula a uma sequência de explicações. O ideal é haver um balanceamento entre escuta, prática musical e explicação, mas sempre visando o exemplo como estratégia primordial. A explicação convence, o exemplo arrasta.