Saber tocar e Saber ensinar

A criação de cavalos é uma atividade humana que remonta séculos. Em diversas regiões do mundo, o homem desenvolveu a habilidade de domar, adestrar e montar cavalos para diversas finalidades. Sobre a montaria, Platão dizia que um escravo que sabia montar era mais livre do que o filho de um senhor. O fato é que o filho do senhor com 6 anos de idade não podia montar cavalos livremente por não ter desenvolvido a técnica necessária e também por não ter a permissão de realizá-la. Em outras palavras, Platão quis dizer que a técnica liberta (em certo sentido).

Com o desenvolvimento da música, a técnica instrumental evoluiu até níveis inimagináveis. Claro que isso foi apoiado pelo desenvolvimento concomitante da luthieria e da composição musical.

Paralelamente, a performance do músico se tornou cada vez mais precisa em termos técnicos, demandando sofisticação e dedicação ao estudo do instrumento. Essa demanda fez com que o instrumentista se tornasse um especialista na técnica instrumental, alargando a consciência dos músicos profissionais sobre o tema.

Assim a arte de tocar instrumentos foi se propagando e levando as pessoas a perceberem a música como a arte de tocar instrumentos. Além disso, a arte de tocar instrumentos passou a ser percebida como uma técnica. Daí uma tendência de enxergar o aprendizado de música como o aprendizado de instrumentos e de enxergar o aprendizado de instrumentos como desenvolvimento técnico.

Existem diversas maneiras de se definir técnica instrumental. Como aqui o foco é a educação musical, pode-se resumir a técnica instrumental às habilidades de executar música com precisão rítmica, melódica e harmônica. E na verdade, o que tem acontecido na educação musical é justamente isso: o aluno se coloca diante de um tutor que vai buscar refinar a sua precisão técnica.

Mesmo que busque a precisão técnica em altíssimo nível, o sujeito deve estar consciente de que a precisão só poderá ser atingida em conjunto com outras competências, como a percepção acurada, a memória e a imaginação musical. Além disso, a conceitualização de certos fenômenos auxilia tanto na fixação de conteúdos, quanto na precisão técnica. É por isso que um aluno não pode dedicar as horas de aprendizagem unicamente a adquirir mais precisão na arte de tocar instrumentos.

Aula 13

Por outro lado, considerar a arte de tocar instrumentos como a arte de atacar uma nota corretamente provoca limitações significativas. Na verdade, o desenvolvimento técnico gira em torno de 10% da aprendizagem musical.

A aprendizagem de um instrumento pode envolver outros tópicos como eficiência motora (global e específica), desenvolvimento da sonoridade, aprimoramento da expressividade e até presença de palco.

Só o aprimoramento da expressividade engloba inúmeros pontos de aprendizagem, como controle da dinâmica, articulação, balanceamento das linhas melódicas concomitantes, refinamento do estilo, fraseado, atenção ao caráter de cada peça etc. A reflexão cuidadosa do professor sobre a expressividade ressalta aos olhos o quanto de aprendizagem pode estar inserida numa simples canção folclórica, quando considerado esse item acuradamente.

Da mesma forma que a técnica da engenharia permite maior precisão na expressão arquitetônica, a técnica musical deve estar a serviço da música e não o contrário. Na análise do fenômeno artístico, compreende-se que a arte é antes de tudo expressão. Para uns, uma expressão da própria subjetividade, para outros, expressão de ideias. De todo modo, a técnica é o que viabiliza a expressão artística. Ela permite que a expressão artística se concretize de maneira mais precisa, mais elaborada e mais eficaz. Isso não quer dizer que a técnica seja a própria expressão artística.

Nesse sentido, tocar instrumentos é fazer música. Mas fazer música é mais do que simplesmente tocar instrumentos. Ao perceber que o desenvolvimento instrumental é apenas uma parte da aprendizagem da música, toma-se consciência de uma outra realidade: Aprender música não pode se reduzir ao desenvolvimento da técnica instrumental. É preciso que o aluno desenvolva a criatividade, a percepção, a sensibilidade artística, a apreciação etc. Ao desenvolver essas competências, até a própria habilidade instrumental será aperfeiçoada. Dessa maneira, a aprendizagem musical será mais integrada, vívida e potencializada.